OPEN STUDIO

A SOMA Galeria inaugura uma nova exposição em seu espaço, que se originou a partir de uma residência artística. Neste sábado (17/03), tem início a individual da artista Silvina Rodriguez, que abre às 11h com o resultado do período de um mês em que realizou suas criações na SOMA.


Acompanhar Silvina em suas caminhadas pelo centro de Curitiba é garantia de que seu olhar será direcionado para vistas diferentes. Neste período de residência, passei com ela por lojas de artigos religiosos, chaveiros, barraquinhas de água de côco - entre outros lugares que, tradicionalmente populares, são normalmente triviais para os nativos. Entretanto, essa cidade não é mais estranha para a artista. Em outro período de residência realizado em 2017, investigou os elementos da paisagem cultural curitibana e os traduziu na pintura “Fauna y flora de Curitiba1”. Nesta, encontramos diversas transições2 do que foi percebido por ela durante sua vivência aqui. Vemos não somente imagens da fauna e flora em termos biológicos, mas também símbolos, dizeres, pessoas e arquitetura “naturais” da cidade. Para esta série de trabalhos em exibição na Soma Galeria - fruto de sua segunda residência na capital paranaense -, a artista escolheu aprofundar algumas percepções mostradas no período de produção anterior: pessoas em situação de rua, calçadas de petit-pavé, lixeiras e lixos.

Natural de Montevidéu, Silvina reconhece sua tentativa em traçar uma alteridade entre Curitiba e a capital uruguaia por meio do contexto social, da paisagem e da arquitetura. Ela direciona a ótica do precário, simples e descartável a sua atenção para o mobiliário urbano, o chão e as pessoas deitadas sobre este enquanto se locomove pela cidade. Durante essas andanças, pude perceber como discretamente tirava o celular da bolsa para fotografar os homens estirados sobre as calçadas - imagens que a serviram como referência para a série “Lembrança de Curitiba” e o trabalho “Cortina de pedras”. Motivada a produzir cerâmica em paralelo a atividade da pintura, a artista retrata por meio das duas linguagens a tensão entre a visibilidade e invisibilidade3 desses corpos presentes na paisagem urbana sob o olhar dos transeuntes. A superfície-rua é também a superfície-pele, como revelam as pedras desenhadas sobre a cerâmica e a cortina colocada sobre a representação de dois corpos, parcialmente camuflados por ela. E sobre estes indivíduos paira o discurso de higienização, cujo trabalho “Ejercicio de Ser” pontualmente retrata diante do atual cenário político do país. O bordado “EXÉRCITO BRASILEIRO” - encomendado de uma alfaiataria militar que encontrou em meio às derivas por Curitiba - se sobrepõe na montanha de gente como grades.

Em meio aos outros trabalhos presentes nesta mostra, a artista provoca um olhar de dignidade e importância ao que ninguém quer olhar. Essa tem sido a premissa de diversos artistas na contemporaneidade e sobretudo, na antropologia há algum tempo. E essas duas áreas do conhecimento se assemelham, por traduzir a visão sobre o outro em visualidade ou palavras. Silvina nos deixa com suas impressões sobre Curitiba, nos presenteia com souvenirs sob o olhar do viajante - um despertar para o que não percebemos ao existirmos nessa cidade.

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1 Visite http://sirodriguez.com/Flora-y-fauna-de-Curitiba
2 “A passagem de uma vista para outra, durante a qual a primeira é gradualmente obliterada enquanto a segunda abre-se, constitui uma transição. Assim, viajar de um lugar para outro envolve a abertura e o fechamento de vistas, em uma ordem particular, através de séries contínuas de transições reversíveis. É através destes ordenamentos de vistas, afirma Gibson, que a estrutura do ambiente é progressivamente revelada ao observador em movimento, de tal modo que ele ou ela possa, eventualmente, percebê-la de todos os lugares ao mesmo tempo.” (INGOLD, 2000, p. 238, grifos do autor, tradução livre)
3 A antropóloga Simone Frangela, ao realizar uma etnografia sobre a corporalidade de moradores de rua, descreve esse tensionamento do corpo como “ um objeto sobre o qual se inscrevem mecanismos de poder e dominação e, por outro, como um agente que desafia estes mesmos mecanismos, a investigação parece mais próxima de captar a dinâmica que constrói o universo dos moradores de rua. A perspectiva analítica mais contemporânea na teoria social sobre o corpo transcende a dualidade sujeito-objeto construída em epistemologias anteriores e, com isso, torna-se um meio fundamental para entender transformações sociais e políticas do mundo atual” (2009, p. 13)

Marina Ramos


Serviço:

Exposição: OPEN STUDIO

Abertura: 17 de Março, das 11h às 18h

 

SOMA Galeria

Brigadeiro Franco 2137 | Curitiba - PR


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