Fábia Escobar

Quanto da memória das pessoas se vai num objeto descartado?

Desde que iniciei meu trabalho como artista visual, em 2014, a investigação dessa relação dos materiais que um dia foram utilitários com quem os utilizou guia minha criação. Gosto de pensar que esses objetos, ou fragmentos que restaram deles, tem as marcas do tempo e a energia das relações sociais de quem os planejou, fabricou, usufruiu e descartou.
Essas marcas me direcionam e inspiram em recriar essas relações numa nova estrutura, dando visibilidade para aquilo que o cotidiano e o descartar tornaram invisíveis. Essa transformação remete diretamente à transição da minha experiência laboral anterior para a atual criação artística.
Como profissional do designer gráfico, de produtos e da web com fins utilitários, os trabalhos por mim criados só se tornavam reais, ou táteis, pela mão de outros. Desenhava o móvel que seria talhado por alguém, a página a ser impressa por outro e o site que seria programado, publicado e editado por desconhecidos. Ao escolher materiais descartados – no início essencialmente de madeira – para transformá-los numa obra artística, refaço esse caminho de volta, criando uma nova relação social.
Assim como os dadaístas que transformaram objetos comuns em obras de arte apenas os colocando para serem contemplados, creio proporcionar uma nova existência para aqueles objetos que deixaram de existir.
Mesmo planejando minuciosamente onde cada peça vai se encaixar, o ato do descarte, a ação que anula a existência de um objeto, é representada com uma estrutura que remete à maneira como foram encontrados no lixo, empilhados, dispostos de forma aleatória. Reduzidos a fragmentos, remontados e reorganizados com uma nova concepção de layout, equilíbrio e ritmo, passam a ter um novo significado e visibilidade.