Entre dois

Inspirado pelos desvios, reconheço a cidade habitada no cotidiano - mas é quando me desloco para o desconhecido que as relações se intensificam, pois as conexões são regidas com mais força pela intuição. “A passagem de que se trata aqui é a de um mergulho no invisível das sensações e de sua atualização em alguma forma de expressão a ser criada.”[1] Vejo a força dos processos criativos agindo nessa mesma direção e em momento indeterminado, de lugar incerto e rumo aos desvios geradores de sentido.

Se há algo que me chama atenção quando chego de viagem, é primeiro, a superfície das calçadas. Andar evoca levemente a sensação de quando se pisa em terra firme após uma jornada em alto mar: enquanto se caminha o corpo oscila, parece que desaprende ou nunca aprendeu de fato a dar passo em linha reta. É o sabor de pertencer à lugar-nenhum. Depois, são as formas de organização do espaço público que tomam meu olhar; o volume de equipamentos que visam o controle dos indivíduos, a intimidação exercida pelas forças armadas, câmeras de vigilância, barricadas, dispositivos sonoros e luminosos, lanças de portões e outras deformações do espaço.

Neste lugar desconhecido, após algum tempo tentando me adaptar ao novo ambiente, começo pouco a pouco a me envolver mais e mais com a cidade. Estabeleço percursos e deixo com que minha subjetividade guie as vias. Vou sendo afetado pelas pessoas, pelo clima, pela língua. Entendo coisas que não sei traduzir. Deixo outras sem entendimento, livres como fios soltos. Estou pronto para me deparar com a morte a cada esquina, porque tudo o que importa é o momento presente, o ar que se respira. Mas não demoro muito e já estou fazendo parte do sistema dos pés famintos, que andam sem vontade, só pelo desespero de chegar. Preciso viajar novamente. O regresso é sempre uma nova viagem. Quando se chega, nunca chegamos, pois sempre estamos indo. E chegando / indo, se há algo que me chama atenção, é primeiro a superfície de onde piso.

Com os pés se aprende a ver espaços que a vista ignora.[2] É possível encontrar pisos em alto relevo, pinos, pedras, cacos de vidro, rampas de cimento, grades de ferro, superfícies revestidas com pintura contra escalada e outras adaptações elaboradas para impedir a permanência de pessoas e causar incômodo a quem se aproximar. São projetos hostis que ferem a cidadania e enfraquecem a possibilidade de uma alteridade urbana, além de reforçarem a invisibilidade daqueles que já estão nas sombras da cidade.[3] São soluções precárias que permanecem sendo adotadas nas cidades contemporâneas. O espaço público é cada vez mais regulamentado, impeditivo e os sintomas da falsa sensação de liberdade que afligem os corpos livres, se evidenciam em expressões arquitetônicas. Quinas e cantos são transformados em rampas ou relevos para inutilizar o espaço. A cidade é equipada com dispositivos de controle e alimenta a cultura do medo incorporada por seus habitantes. Sobre a perspectiva daqueles que não têm tato nos pés, “caminhar vira uma atividade estranha, anômala, em que se deve ficar de olho.”[4] Alguém que, por ventura, não se adapte ao modelo de produtividade em vigor nessa sociedade, será condenado. Para os conservadores da ordem, caminhar é a prática do outro,[5] daquele excluído, o suspeito que anda do lado de fora: um homem lento que ameaça o progresso. Por que a estrutura da cidade cumpre uma ideologia funcionalista, que privilegia o trabalho sistemático e o consumo irrefreável em desprezo a outras possibilidades de fruição e construção da realidade? Em território de caça, ouve-se os gritos dos cães raivosos. Políticas poéticas, que rearticulem os modos de perceber o outro e a cidade, são respostas que se fazem necessárias.

Gustavo Ferro

 

[1] Rolnik, Suely. Capítulo -  À sombra da cidadania: alteridade, homem da ética e reinvenção da democracia. Livro – Na sombra da cidade / Maria Cristina Rios Magalhães (org.) – São Paulo: Editora Escuta, 1995. P. 153

[2] “O caminhar condiciona a vista e a vista condiciona o caminhar a tal ponto que parece que apenas os pés podem ver.”Citação de Robert Smithson. Careri, Francesco. Walkscapes : o caminhar como prática estética / Francesco Careri ; prefácio de Paola Berenstein Jacques ; [tradução Frederico Bonaldo]. -- I. ed. -- São Paulo : Editora G. Gili, 2013. Citação de Robert Smithson P.110

[3] “Colocar a alteridade à sombra da cidadania pode soar estranho, já que a ideia de cidadania está imediatamente associada a reconhecimento e respeito pelo outro.” Rolnik, Suely. Capítulo -  À sombra da cidadania: alteridade, homem da ética e reinvençãoo da democracia. Livro – Na sombra da cidade / Maria Cristina Rios Magalhães (org.) – São Paulo: Editora Escuta, 1995. P. 143

[4] “caminhar é um pensamento prático alternativo ao modo de pensar dominante” Adriano Labbucci; Caminhar, uma revolução; p129

[5] Adriano Labbucci; Caminhar, uma revolução p.166