Desktop

As construções perpetradas por Rafael Vicente invariavelmente nos remetem a estudos de perspectiva; contudo, são elas antes invenções que traduções da realidade, não há leitura de códigos, ao contrário, faz-se uma pré-figuração que transcende determinações ulteriores. Vicente parece esmiuçar o que propunha Pierre Francastel em seu livro A Imagem, A Visão e A Imaginação, dando-nos resultados analíticos da percepção e mesmo da linguagem figurativa. Por outro lado, somos conduzidos em nosso olhar, nas pinturas do artista, a passagens e divisões, aberturas e cortes, prolongamentos ao infinito e retenções abruptas, tudo disposto com tamanha pungência que mal vislumbramos uma saída, tal e qual um modelo de labirinto simulado em um ato pictórico que o artista nomeia de Desktop, remetendo a um sistema operacional cujos procedimentos estão relacionados ao que encontraríamos em uma mesa de trabalho, melhor entendido neste caso como seu processo artístico.

Ainda que, curiosamente, seu resultado seja um emaranhado de possibilidades visuais, inclusive formalmente conduzidas para além do espaço da tela em muitos casos, o trabalho realizado traz a carga da investigação e da reflexão, nada ali é acessório, tudo está em acordo com um esforço que entrelaça o pensar e o fazer com a aptidão que poucos possuem. Assim é que suas alquimias remetem a experiências psicológicas que testam as reações do espectador que não está isento de se ver desorientado no conjunto intrincado de percursos propostos sem saber ao certo aonde ir. Porém, os labirintos, depois de algumas voltas, nos levam ao seu centro, esse é o objetivo.

O processo labiríntico que Vicente oferece é sua poética ritual de longa data que já se manifestava em suas pinturas de barcos ancorados, algo que ganha contornos de especificidade em sua maturidade artística, longe de ser um abuso complacente e próximo ao domínio crítico, comum aos que têm perseverança em suas pesquisas.

Desktop é o resultado de uma trajetória que se estabeleceu firme como desafio à imaginação com implicações mais profundas que as aparências em que o artista ao privilegiar um estatuto não anulou seus antecessores, senão os manteve como marcos de referência em sua jornada, ponto de partida para saber de onde veio, para onde vai.

Osvaldo Carvalho