Aliás

As questões da artista talvez envolvam a própria estrutura da arte, sua especificidade e elementos representativos. Aproveitamento. Queria dizer que aqui estou. Nesse sentido, não poderia ela optar por outro suporte, visto que a técnica é completamente absorvida pela expressividade. Vontade de conversa. Nessa sala branca que se abre entre carregados ambientes de criação, de cores e texturas, de concepções, de vestígios de algo que existiu/existe. Claro que dentro dessa temática coexistem outras questões que são investigadas. Gesto que vem de fora. Camadas e camadas. E essa investigação vai além de uma especulação técnica. Estado de atenção e de escuta. Aqui tudo sempre foi muito possível. Eleonora vai muito além e nos entrega uma obra de alguma forma didática, no sentido de discutir problemas gerais e entregar chaves interpretativas amplas. Mais cor, menos gestos. Soma. É como se fosse um convite, e assim me arrisco a dizer, para a contemplação de quadros, e não sob o conceito tradicional, mas sob a ideia de recriar esses conceitos de pintura, de quadros e de Obra de arte. Escolha da madeira. O outro sempre presente nesse lugar. Essa recriação se dá por análises e vestígios técnicos e poéticos que Eleonora faz, sejam as coleções de pinceladas, ou o palimpsesto de tintas e texturas que aparecem nos grandes painéis anteriores. Traz ordenação. Esse lugar que já foi muitos. Eleonora ultrapassa os limites da tela e vê nela sua indispensável relação com o espaço. Decisões para o processo. Aqui fiquei. Esses limites já foram, claro, discutidos por outros artistas, Pollock, Mondrian, quanto a espacialidade da obra e nas criações renascentistas, pensando na elaboração do que seria o considerado belo e ideal na arte. Provocação indireta. Marco uma posição. É nessa situação que a obra de Eleonora Gomes tenha o maior ponto de coerência, já que, quando a sociedade se encontra em determinada situação repetida, a arte também deve retomar esses problemas, com soluções novas, mas falando de temas já falados. Sem fechar o trabalho para esperar uma provocação externa. Mudança. É uma soma de conteúdos vivenciados pela artista dentro de um contexto social e emocional, e ainda, seja falando do Eu ou falando do Nós. Inclui a recepção para entender o trabalho. Resisto. A obra, nem tanto se torna ativista, no momento que não toma alguma bandeira com muito ardor, mas aponta maneiras distintas de ver e interpretar o mundo. Recusa em ter o domínio.  As pessoas finalmente vieram. A obra, nem tanto se torna ativista, no momento que não toma alguma bandeira com muito ardor, mas aponta maneiras distintas de ver e interpretar o mundo. Conversa com o espaço em branco. Coexisto.  E quando eu declaro que não se trata de uma obra ativista, não se trata também de uma obra apelativa, o domínio da técnica é tão grande que por mais autônomas que os elementos sejam, sua totalidade, e como totalidade quero dizer quantidade e escolha deles, é totalmente precisa. Atua no limite do retângulo. Persisto. Não há espaço para falsos conceitos e os próprios pentimenti fazem parte de uma ideia de processo. Precisa do espaço branco para a exposição?  É sempre tudo muito claro, e expressa com generosidade todas as situações pré-dispostas pela agente. Acaso. Ser espectador da obra de Eleonora Gomes é receber quase um dever, de reinterpretação do momento da pintura, do momento anterior e do momento futuro. Licença para existir. E ainda sobre isso, não há uma fórmula fechada em todo o processo, que seja capaz de delimitar a próxima ação. Existência concretiza. Há sempre uma visão diante do abismo, e parece esse lugar, o lugar de criação da artista. Um lugar incerto, frente a novas visões de mundo.

*Texto colagem criado a partir da fala da artista, texto de Eduardo Cardoso Amato e de anotações de terceiros sobre meu trabalho.