A Matéria da Memória

 A MATÉRIA DA MEMÓRIA

Nascidas logo antes do início da Segunda Guerra Mundial, Guita Soifer e Inna Cymlich tiveram que lidar desde cedo com o exílio, a ausência e a falta dos desaparecidos. Embora genham vivido de forma direta ou indireta o trauma do conflito e das suas consequências, as artistas, ambas autodidatas, compartilham a urgência de marcar o pulso da vida, de encher o vazio, de desejos e resiliência. Nas pinturas, gravuras e esculturas de A Matéria da Memória, a narrativa está sugerida através de volumes e espaços ora cheios, ora livres de rastros, de densidades e nuances de luzes e sombras que remetem a momentos de vida, lugares familiares ou distantes e emoções, anulando assim a passagem do tempo. As janelas, portas, corredores e paisagens de Inna Cymlich, revelam a busca da artista por um destino sempre novo, uma saída. Ecoando com a sua vida nômade entre a Europa e as Américas depois de ter fugido da Rússia ainda criança, estes espaços mentais e físicos traduzem de forma expressiva a inquietude e a necessidade de liberdade que caracterizam tanto a obra quanto a vida da artista. Assim, na pintura Façade, Inna Cymlich reproduz a geometria e as faixas de luzes das janelas do seu apartamento paulistano, apontando a sua atração para o exterior e o movimento tranquilizador da rua. Nas outras obras mostradas, a escolha do carvão remete, da mesma forma, à ideia de independência, através de uma gestualidade livre e forte, potencializada pela técnica e usada para sobrepor traços vigorosos, criando áreas densas de preto e vazios luminosos. A necessidade de liberdade também permeia as obras de Guita Soifer, que se opõem à coerção do cotidiano. As pinceladas em suas pinturas, as formas livres de suas gravuras – ressaltadas nas suas leves esculturas-paisagens pretas e brancas, contrastam de fato com obras nas quais a artista se refere ao universo doméstico e se reapropria dele. Nestas últimas, imagens de utensílios de cozinha e uma poltrona coberta de uma pintura branca visceral são utilizadas pela artista para tomar posse de figuras associadas por ela à autoridade. É a tentativa de domar o peso da obrigação através do espírito livre e da insaciável curiosidade de Guita Soifer que transfigura o corriqueiro e revela uma linguagem multifacetada e intuitiva. A Matéria da Memória nos propicia uma experiência visceral da história individual e coletiva das artistas, dos tempos sombrios assim como dos momentos alegres que elas atravessaram e seguem atravessando, produzindo sempre e avidamente, na materialização do gesto, lembranças, cheiros e sensações que as palavras não poderiam descrever. Dialogando com o aniversário dos 70 anos da criação Estado do Israel e acontecendo em um momento de crises na cena mundial, a Matéria da Memória, nos lembra que a vida é espiral, em movimento perpétuo, assim como o nosso DNA, a forma das conchas, o movimento do mar e dos astros celestes, como a arte que sintetiza e transforma referências. Voltamos ciclicamente a lugares similares, embora diferentes. Talvez isso possa nos levar a questionar a volta da intolerância e a repetição de políticas de exclusão que proliferam no mundo atual e nos ajude a reconhecer a impermanência de padrões que enxergamos como imutáveis; como as figuras do carrasco, salvador e vítima. Nesta nova virada dos tempos, talvez a arte, a troca permanente que ela implica, pode nos ajudar a voltar a lugares mais empáticos de abertura e de diálogo pois, ao final, somos todos moradores temporários dessa mesma terra.

Inna Cymlich nasceu nos montes Urais, na Rússia, e viveu como nômade, morando em diferentes continentes, até se radicar em São Paulo. Trabalhou no mercado de arte primitiva e moderna em Nova York e Londres, até viajar para América do Sul. Sua prática como artista é relativamente recente, com um pouco mais de 10 anos de produção dedicados principalmente à pintura, exposta em coletivas e individuais em diversos países, galerias e instituições. Inna transita entre a abstração, traduzindo emoções e lugares, e a figuração, com traços poderosos remetendo à cenas de viagens, ou lembranças de parentes, amigos e artistas que admira.

Guita Soifer nasceu em Curitiba, onde vive e trabalha. Artista multidisciplinar, a sua produção transita pela fotografia, pintura,escultura, gravura, escultura e vídeo-arte. Nas suas obras, a artista celebra o acaso, a liberdade, deixando espaço a experimentação. Dentre as exposições que participou, se destacam, a 13° Exibição Internacional Independente de Kanagawa (Japão, 1987), a 1°Trienal de Gravadores (Japão, 1988), 1° Bienal Internacional de Assunção (2015), Bienal de Cuba (2015), a Bienal de Literatura de Curitiba (2016) e a Bienal de Curitiba (2017).

Julie Dumont
Setembro de 2018


Fotos
Daniel Katz